Monday, June 28, 2010

Lampejos

Cecélia tem um ritmo lento de acontecer. Como sabão que precisa ser esfregado contra a roupa que sacode o rio. Coisa antiga, movimento de mão zelosa, mas firme. E ela prefere assim, cadência de ribeirinho e cantiga de um trem cheio de recados que vem de longe. Feito o filho que mora na cidade e manda cartas que escreve com desenhos, porque ela não lê.

No centro, o chão de pedregulho rasga a fibra da madeira preciosa da carreta de boi, e o barulho que faz se constrói lentamente. Ruído que Cecí, sentada no cangote do carro ligeiro, esconde, cantando assim: guaiaqui, guai a qui, vem vem, bem-te-vi.

Na casinha que ela pintou com um resto de tinta amarela, um lampião aguarda a chegada da noite de São João. Enquanto Cecélia, de vestido estampado, olha as estrelas e pede que elas tragam a manifestação viva de si mesma. Ó Minha Mãe, que ele venha acompanhado dos filhos e de um pouco de comida pra que de modo nada, nada falte.

A lavadeira, amiga desde a infância, sabe que o filho não tem filhos e que os delírios de Cecí são tentativas de aquietar lampejos. Coisa que o deserto gosta de criar. Botar dentro de cada um essas inquietudes, principalmente quando da solidão. Uma espécie de demônio. E a amiga, que não é comadre, fica de vigília. Cuidando de compreender o encontro.

Naquela noite, ele chegou feito o vaqueiro Manuel, de capa longa e chapéu. Cecí o trouxe pra dentro com um abraço destinado a envolver. Desvelos. E bem devagar sussurou que era noite de São João e que o céu fulgurava desejos. A porta ficou num abrir de manso e a cena se revelou de modo lento, em ritmo e cadência de estrela.

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