Tuesday, January 25, 2011

Entre o céu e a terra, as consciências

O Gato 
A escada que vai para os quartos fica de frente para a porta que dá para o quintal dos fundos. Então, sempre que subimos ou descemos temos a vista do pequeno gramado e varanda cujo cimento rasgou enviesado. Hoje, quando nos preparávamos para subir, fomos interrompidos por um brilho incomum que vinha através do vidro. Os olhos do gato olhavam escancarados e falamos putz um gato! E era um ele. Tinha aquele olhar de piedade igual ao de um menino órfão. Aproximamo-nos dois passos. Ele saiu correndo. E como era da cor da neve quase assim, não dava para fazer distinção. Esquecemos de pedir que tomasse conta do quintal. Passaram-se dois dias desde que a ratoeira pegou um camundongo na garagem. Havia bastante cocô ao redor da armadilha e eles lembravam arroz selvagem. Achamos relevante. 

O Bando
Em Azalea há um bando de gansos que se movimenta gasnando no céu, construindo enunciados e tecendo nuvens. Eles voam em dias claros e longos, e o som que produzem é tão limpo e ecóico que transporta améns. O ganso maior voa na frente. É a bússola e a flecha. Os outros cinco seguem abrindo um V e voam descoordenados. O último do bando é o mais lento, se desloca levemente, não o perdemos de vista. Os outros o subestimam. 

Os seios
Feltro é um bom remédio para o frio. 
E músicas de cinco minutos para o banho quente que causa rachaduras no gesso. Chá com torradas sobrepostas para meias de lã que cobrem a pele alabastro. O barulho da fornalha faz com que queiram passar frio. Tão forte e propulsor. As caixas de papelão dariam uma bela cama se não fosse pelo camundongo que encontraram na garagem. Quando neva o céu é branco inclusive a noite. Vimos os seios da vizinha através da noite na janela do ano novo e nos lembramos do nariz de Depardieu: avant-garde. Quando éramos pequenas colocávamos uma caneta embaixo dos seios para sentir a firmeza dos mesmos. As canetas deviam sempre cair, puxadas pela gravidade e maçãs que usamos para tortas. Escreveram um livro com frases de santinhos que começava assim: "Morreu pleno de esperança de que a família não vai brigar pela herança que dividiu em 37 partes iguais". O busto continua do tamanho de uma floreira de janela. 

Thursday, January 13, 2011

Corduroy road

E se tudo for verdade ela vai morrer e ele não vai ver?
Lá vai a minha arma.
Bateu a porta com força e saiu com pressa em movimentos que faziam a casa tremer.
Havia um buraco no chão da calçada que não viu com a cor da noite. Não pode ser! O cavalo negro alado. Ficou presa no orifício com as mãos para fora e o chão que era frio. E a brisa leve e o chão que era frio. Ela tentou gritar mas havia um esquilo que olhava com olhos de gato. Restos de mentiras que costuramos para dentro atraente. Algodão.
Lá vai direto para o céu. Morrer é leve de apenas um gemido, ai.
Eu não acredito que a conheci. Coloquei a cabeça pela janela e não vi mais o jeans corduroy que costumava contornar a esquina. No fogão, Campbell esquentava maravilhas e fervia. Tão vaidosamente quente.
Sentou-se e começou a escrever uma carta para ela. Lembrou-se da sopa que havia para o jantar e a colocou no prato sem muito cuidado queimando o polegar. E se eu for atrás, será que consigo alcançá-la na plataforma?
Ela é tão estranha e tão dela. Da noite que não cabe no quarto.
Fingiu que sonhou com pessoas iconográficas que carregavam pixels nas mãos, saltando juntas e firmes sobre pequenas poças de água computadorizada deixando escapar corações pela boca.
O carro de bombeiros fechou a rua e removeu o corpo para fora do buraco. Num instante de muito barulho, onomatopéias corriam pela rua e ventavam. E ele não escutou? Rá! Era tarde e os vizinhos olhavam para fora com as luzes apagadas. Vergonha que tenta imitar o que significa.
E ele saltava cada vez mais alto e olhava para a carta que estava tão fria, e para a sua cama e a lua com fibras verticais.

(Publicado originalmente em setembro de 2007.)

Saturday, January 8, 2011

Esperando chover

No caminhãozinho cheio de barro um pedaço de goiaba e um soldado de plástico. O menino mal andava com o bolso cheio de chumbinho que ele pegou escondido na oficina do avô. Às vezes limpava a goiaba na blusa, às vezes não, conforme o gosto. Ara, se a mãe visse. Era um fim de dia rezado. Já rápido vinha o carro levá-lo, e o acabou que encompassava assistir ao avô trabalhar em silêncio fazendo rodas de carreta. Mas se chovesse era como se colocassem rédeas no acertado das horas e ele tinha até o dia novo na casa dos avós. Inté a chuva passar e o barro secar e criar rastros e rugas no chão, machucando o pé de quem anda descalço, sem ferradura. Zaz no galope da vassoura que Nana procurou a tarde toda. "Estou fazendo desuso, Nana", dizia ele com a boca cheia de goiaba e de boa vontade. Menino não gostava do pai que vinha vindo e, visto que a chuva havia empacado numa nuvem muito sem cumulo, molhou o rosto com água, fazendo uns pingos na blusa e na bermuda. O vô buscou na gaveta um par de roupa velha do ano passado e resmungou "deixa o seu pai te pegar molhado", mascando fumo. E ele virava o corpo pra lá e pra ca, bem moleza. Saiu correndo quando o carro chegou e Nana teve que buscá-lo detrás do pé de jaca fedido e mais gostoso do mundo. Uma catedral de coisas passou na cabeça do menino. Foi arrastando com o chinelinho de couro fazendo barulho e chispando com o chão. Nana sussurrou no ouvido que era só guardar os temores num embrulho que o sonho amaciava. Ele olhou e acenou uma vez com o carro já ligado.