Friday, August 21, 2015

Álvara e Bengião

No caderno desejoso derramar sobre aquele exato momento em que se sentiu de uma insignificância igual formiga quando encontra o dedo da criança. Fim. Sentimento angustiante que rasga a terra e suga o que nela descansa. Tudo e todos. Uma galaxiazinha que passou a vida tecendo. Era isso, somos tudo galaxiazinhas. Só que o caderno ficava na estante convidando olhos curiosos e Álvara não falava muitas línguas nenhuma. E por conseguinte não dava para codificar. Tinha medo que lessem não por causa de algum escândulo secretuloso, mas porque não queria que sentissem dela pena e despenassem.
Tem dias que as estações dentro da gente esquecem de mudar. No estado das monções ficava difícil tocar o comum dos dias, as tarefas mais banais, vazias de complicações. Álvara sentia toda aquela água despencar e seu choro ecoava para trás das colinas, verde adentro, rio abaixo. Através do choro ela se despia da vergonha de sentir todos aqueles meteoros pesados de uma insegurança escura feito noite de céu sem estrelas. E então repousava imaginando se seria mais feliz se visse apenas céu de estrelas. Todos os dias estrelas. E envisionou que não, que não havia de possível tal cabimento astronômico. A ingenuidade é uma poeirinha cósmica.
Às vezes ela magoava Bengião. Chegava a deixar ele bravo, era coisa de desencontro de palavras, um descompasso matemático. Porque as monções, a bem da verdade, não o incomodavam. As descompreenções eram assim como se ambos quisessem segurar o peso de toda a galaxiazinha, tomar para si aquilo que só se faz possível no juntamento, na soma e no desembaralhar da vida. Eis que chega a época de ventanias e tocar o dia após dia nessas condições era impossível. Ela queria Bengião, Bengião não queria ela. Depois ele queria e ela não queria. O vento soprava os sentimentos pro mais longe dos lugares. Compunha uma dança desencontrada, de corpos embalsamados. Era feio e o céu esbravejava.

Álvara amava Bengião em todas quase estações. O que ela não amava não era bem Bengião e sim os sentimentos e monções que brotavam de situaçõezinhas determinadas. Porque ela sabia que os sentimentos não eram ela, mas representações, explicações de ideias, pré-conceitos, coisas que não cabem no escaninho da alma somente. Coisas que vem e vão feito cometinhas de nenhuma vergonha na calda. Na estação quente e também na fria em que corpos comungam e aquecem seus espíritos renovados, o suór reaviva a carne, a terra racha e lábios doces florecem. A mais da verdade, que transcende toda gente é que lábios florecem em todas as situações que permitem abertura e entrega. E no somar dos anos era a entrega que se firmava troncosa, crescida de uma força vida-morte-vida para além da atmosfera. Álvara e Bengião.

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