Thursday, September 15, 2011

Aquidauana

O avô espalhou pelo chão da sala discos de memória e afeto. Regressar à infancia tem gosto de sertão. Boca da terra vermelha.

Thursday, May 5, 2011

Vitral

Pensamentos atrofiados que carrego no bolso.


( 718 - 404 - 1374 telefone público em frente ao salão da Carmem)

"Estou tentando descrevê-lo com a minha foto na mão. Eu sei. Não ... escuta, somos muito parecidos", insistiu Eva. "O quê? Você não está me escutando? Tem um auto-falante fantasiado de alter ego dizendo que você devia agir de forma mais natural?".

( 212 - 506 - 7721 telefone público da capela da Principal com a São Benedito)

"Soube que ele está vendendo barras de chocolate no céu. Não, não ... me disseram que está tudo bem, mas que as nuvens são duras e ásperas. Qualquer coisa sobre um condensamento mundano e uma placa que diz: não pise chão molhado. O suicídio do coroinha?", perguntou surpresa Doroteia.

( 718 - 303 - 9045 telefone público qualquer na esquina do Nosso Cinema)

"Repito insistentemente que a exposição Homem-Máquina aconteceu em 2002 ... acho que em São Paulo. Escutou? ... Brasil? Foi, foi ... Se ela sobreviveu? Bem, foi traumático, havia um filme japonês The Iron Man ou algo assim, mas que no fundo era sobre a nossa sociedade. Sabe como é, quando caem as máscaras: demência.

Porque de perto todos parecem iguais.

Desmemoriado numa segunda-feira, dia 10 de setembro de 2007

Thursday, April 28, 2011

Vida que segue

Vendo fiado:

Solidão - a vista do alto do meu superego. 

Medo - do desconhecido que é feito mar aberto. 

Tristeza - produz um eco que não cabe nas cavidades corpóreas. 

Vergonha - uma antena com interferência. A mulher precisa gritar com mais elegância.

Derrota - desejo bifurcado. Tenho algumas, dão que nem praga. 

Tuesday, March 22, 2011

O destino entres as pílulas e os cavalos alados

A casa vazia

Deixou o bilhete escorrer e entregou o corpo aos desejos possíveis, encostando-se na parede mais próxima em estado de euforia e suspensão. Porque cinco minutos são vinte não escutou a banheira transbordar. A água levando-a mais pra dentro de si mesma. 

Um quarto para dois

Carregou-a pra dentro e fechou as janelas que logo começaram a transpirar. Há desejos aleatórios jogados no chão que ele tenta resgatar com cuidado. O corpo dela sobre a colcha os aquece e liberta de qualquer tensão. De todos os caminhos a boca é a desculpa para amar. 

E a estrada, sempre

Jogaram a moeda pro alto e o resultado trincou o lábio com força. Então partiu, sentindo-se prisioneiro de si mesmo. O corpo deslizando pela parede feito chuva fina e o balão vermelho no céu deslocando-se ao encontro do carro. Desejos tomam o rumo dos
ventos incertos. A marca do pneu é quase que uma cicatriz no peito.

Friday, March 18, 2011

A maçã dentro do armário

No desistir da tristeza, os três tipos de liberdade. Entre a morte pequena e a maior. Entre a verdade inevitável que paira sobre a ponte e o crepúsculo alveolar. Pendente. E tudo aquilo que ela não consegue entender: a infância reminiscente. Árvores ocas para um eu efetivo. Se couber, os sonhos.

Thursday, January 13, 2011

Corduroy road

E se tudo for verdade ela vai morrer e ele não vai ver?
Lá vai a minha arma.
Bateu a porta com força e saiu com pressa em movimentos que faziam a casa tremer.
Havia um buraco no chão da calçada que não viu com a cor da noite. Não pode ser! O cavalo negro alado. Ficou presa no orifício com as mãos para fora e o chão que era frio. E a brisa leve e o chão que era frio. Ela tentou gritar mas havia um esquilo que olhava com olhos de gato. Restos de mentiras que costuramos para dentro atraente. Algodão.
Lá vai direto para o céu. Morrer é leve de apenas um gemido, ai.
Eu não acredito que a conheci. Coloquei a cabeça pela janela e não vi mais o jeans corduroy que costumava contornar a esquina. No fogão, Campbell esquentava maravilhas e fervia. Tão vaidosamente quente.
Sentou-se e começou a escrever uma carta para ela. Lembrou-se da sopa que havia para o jantar e a colocou no prato sem muito cuidado queimando o polegar. E se eu for atrás, será que consigo alcançá-la na plataforma?
Ela é tão estranha e tão dela. Da noite que não cabe no quarto.
Fingiu que sonhou com pessoas iconográficas que carregavam pixels nas mãos, saltando juntas e firmes sobre pequenas poças de água computadorizada deixando escapar corações pela boca.
O carro de bombeiros fechou a rua e removeu o corpo para fora do buraco. Num instante de muito barulho, onomatopéias corriam pela rua e ventavam. E ele não escutou? Rá! Era tarde e os vizinhos olhavam para fora com as luzes apagadas. Vergonha que tenta imitar o que significa.
E ele saltava cada vez mais alto e olhava para a carta que estava tão fria, e para a sua cama e a lua com fibras verticais.

(Publicado originalmente em setembro de 2007.)

Saturday, January 8, 2011

Esperando chover

No caminhãozinho cheio de barro um pedaço de goiaba e um soldado de plástico. O menino mal andava com o bolso cheio de chumbinho que ele pegou escondido na oficina do avô. Às vezes limpava a goiaba na blusa, às vezes não, conforme o gosto. Ara, se a mãe visse. Era um fim de dia rezado. Já rápido vinha o carro levá-lo, e o acabou que encompassava assistir ao avô trabalhar em silêncio fazendo rodas de carreta. Mas se chovesse era como se colocassem rédeas no acertado das horas e ele tinha até o dia novo na casa dos avós. Inté a chuva passar e o barro secar e criar rastros e rugas no chão, machucando o pé de quem anda descalço, sem ferradura. Zaz no galope da vassoura que Nana procurou a tarde toda. "Estou fazendo desuso, Nana", dizia ele com a boca cheia de goiaba e de boa vontade. Menino não gostava do pai que vinha vindo e, visto que a chuva havia empacado numa nuvem muito sem cumulo, molhou o rosto com água, fazendo uns pingos na blusa e na bermuda. O vô buscou na gaveta um par de roupa velha do ano passado e resmungou "deixa o seu pai te pegar molhado", mascando fumo. E ele virava o corpo pra lá e pra ca, bem moleza. Saiu correndo quando o carro chegou e Nana teve que buscá-lo detrás do pé de jaca fedido e mais gostoso do mundo. Uma catedral de coisas passou na cabeça do menino. Foi arrastando com o chinelinho de couro fazendo barulho e chispando com o chão. Nana sussurrou no ouvido que era só guardar os temores num embrulho que o sonho amaciava. Ele olhou e acenou uma vez com o carro já ligado. 

Wednesday, November 10, 2010

Another fine day to say goodbye

(Exercício que escrevi para um curso que estou fazendo em creative writing na Berkeley online.).

The sun crosses the room and Dorothy remembers that she needs to hang up the clothes outside. Sundays are so quite. She opens the door to the backyard and the breeze that comes in is hot. "Like a pressure cooker, a fall stew in a pressure cooker". Her daughter, Elise, calls to let her know that she is running late and that she will bring Dorothy's favorite cupcakes. Apple and Carrot cupcake with twenty ingredients that only Elise can make, or has the patience to make. Dorothy feels weak, her legs have been cheating on her since last summer and she hates them a little for that. The Book says not to hate. But she does and thinks "it's the age, I am allowed".

The sky is clear, at least. The red clothesline full of clothes looks like an old garland forgotten in the closet. Faded colors and a few holes complete the picture. Dorothy used to hang up her hopes and dreams on the clothesline in the past, when her two children were little. She had a special clothing pin for that purpose: four hand carved 1900's pins that belonged to her mother. They still have that wonderful primitive look, but now rest in her recipe box. Elise does not know, but her mother plans to give her the recipe box tonight. Life is a perpetual state of letting go. Sunday silence sounds good to her and she lays down in the couch. The cardinal outside sees her tired expression and flies away with its song under its wings. "There is no wind to cool a hot day", he thinks.

The light pink box decorated with white paper doilies says "Lost in Reverie". The name of a famous bakery in the city where Dorothy used to buy Christmas cookies. She still has the box that now embraces mementos, souvenirs and a lot of herself. A picture of her wedding takes her back to the past. Sun setting, a piece of cake and the driver as a witness. A beautiful elopement she doesn't get tired of revisiting. "Nothing is the same", she thinks as she hides the photo in her pocket. A kiss. As the year progressed and her legs became weaker she organized her most dear belongings on a coffee table she could easily reach if she needs to.

The telephone rings again, but Dorothy's fatigue keeps her from answering it. She feels sorry because she knows it is Benjamin, her youngest son. So they won't talk again. She thinks. When he left the country to live with his fiancee in South Africa, Dorothy started experiencing phantom pains throughout her body. She still feels them when she enters his bedroom. A depressing feeling of being alone. Benjamin didn't like to sleep alone in his bedroom. For years she had to keep the hall light on. He used to say that it was the candle of goodbye, and she always, always assured him, "yes, the candle of goodnight, Ben". Time goes by and suddenly life is a thick book of fading photos.

The door cracks. It is Elise coming with her tender smell of lavender. She is very noisy and animated and looks like she is going to bloom any time. "I brought your cupcakes, I baked them with nineteen ingredients this time", she says as she closes the door. But by now Dorothy is asleep. Elise kissed her forehead and went to the kitchen to make lemonade. She looked around, through the windows and everything she saw was covered with mixed memories. The house she was born in, had her first Christmas, broke her right arm, planted sunflowers, went trick or treating with her cousins, got caught kissing her neighbor, left for college, and so on. Each memory feels like a island connected by her desire to bring them to life. She finds in the cupboard a seashell and holds it next to her mother's ear. Her smile is soft and spontaneous.

In the backyard, Elise calls Benjamin and cries. "I think this is the last song in the blue tape", she says. When they were little kids they used to play with daddy's blue tape, a painter's tape pretending it was life itself and that everything they could stick to the tape was part of their lives: dreams and hopes, pictures from magazines, tiny toys, pennies, more or less. He cries and hangs up the phone. Sundays are like a Hopper's paint. "Take a deep breath, Elise, and go", says the cardinal. And she does go inside, sets the table and takes a quick shower. The ceiling fun looks like a child learning how to blow air. Her mother wakes from her nap and sees the table ready. Slowly she opens the drawer of the TV stand and picks up the videotape "Driving Miss Daisy".

Mother and daughter sit on the window bench and for a moment they pretend to know what they are doing. Elise rests her head on mom's lap very gently, takes her hands and puts them on her belly. "I'm pregnant". Dorothy, overjoyed, opens the pink box. Inside there is a pair of crochet shoes that belonged to baby Elise. The birds are singing blissfully as both celebrate day to day miracles. "You missed one ingredient, you know that, right?", says Dorothy. Oh, the excitement and mirth of the relationships... And so they sit to watch the movie with the cupcakes in between them. The whole scene is like a prayer. "Mom, if you had a wish, a single wish, what would it be?". "Another fine day to say goodbye".