Friday, September 25, 2015

A raposa e o sussuro da lua

No canto escuro do quarto havia uma raposa. Ainda não é certo se o que eu sentia era medo do bicho selvagem ou do selvagem em mim. Cheguei a tocá-la do quarto ao que me parece. Porque estava escuro e paira uma névoa sobre as coisas que cuidam da verdade.

Na segunda noite, no canto escuro do quarto lá estava a raposa. Assim parece eu peço para um homem, talvez meu marido talvez meu pai ou sogro, tirá-la de lá. Então eu mesma a coloco para fora entre as paredes da casa e o portão.

Sentia-se que estava cinza. Um pouco escuro e eu mesma não sabia porque queria que ela partisse. E por vias também incertas saio eu mesma e a levo até o portão. Pois que o que se segue é a única verdade que eu tenho como certa.

Choramos. Eu e a raposa. Um choro de uma despedida de uma vida. Ela me abraça feito gente com suas patas dianteiras e eu fico com o coração apertado. A metade de mim que assiste de longe fica assim com o coração entre rochas. Era como se eu estivesse tocando um filho para fora de casa.

Mais tarde vim saber que eu me despedia do meu avô. Finalmente, em sonho.

Friday, August 21, 2015

Álvara e Bengião

No caderno desejoso derramar sobre aquele exato momento em que se sentiu de uma insignificância igual formiga quando encontra o dedo da criança. Fim. Sentimento angustiante que rasga a terra e suga o que nela descansa. Tudo e todos. Uma galaxiazinha que passou a vida tecendo. Era isso, somos tudo galaxiazinhas. Só que o caderno ficava na estante convidando olhos curiosos e Álvara não falava muitas línguas nenhuma. E por conseguinte não dava para codificar. Tinha medo que lessem não por causa de algum escândulo secretuloso, mas porque não queria que sentissem dela pena e despenassem.
Tem dias que as estações dentro da gente esquecem de mudar. No estado das monções ficava difícil tocar o comum dos dias, as tarefas mais banais, vazias de complicações. Álvara sentia toda aquela água despencar e seu choro ecoava para trás das colinas, verde adentro, rio abaixo. Através do choro ela se despia da vergonha de sentir todos aqueles meteoros pesados de uma insegurança escura feito noite de céu sem estrelas. E então repousava imaginando se seria mais feliz se visse apenas céu de estrelas. Todos os dias estrelas. E envisionou que não, que não havia de possível tal cabimento astronômico. A ingenuidade é uma poeirinha cósmica.
Às vezes ela magoava Bengião. Chegava a deixar ele bravo, era coisa de desencontro de palavras, um descompasso matemático. Porque as monções, a bem da verdade, não o incomodavam. As descompreenções eram assim como se ambos quisessem segurar o peso de toda a galaxiazinha, tomar para si aquilo que só se faz possível no juntamento, na soma e no desembaralhar da vida. Eis que chega a época de ventanias e tocar o dia após dia nessas condições era impossível. Ela queria Bengião, Bengião não queria ela. Depois ele queria e ela não queria. O vento soprava os sentimentos pro mais longe dos lugares. Compunha uma dança desencontrada, de corpos embalsamados. Era feio e o céu esbravejava.

Álvara amava Bengião em todas quase estações. O que ela não amava não era bem Bengião e sim os sentimentos e monções que brotavam de situaçõezinhas determinadas. Porque ela sabia que os sentimentos não eram ela, mas representações, explicações de ideias, pré-conceitos, coisas que não cabem no escaninho da alma somente. Coisas que vem e vão feito cometinhas de nenhuma vergonha na calda. Na estação quente e também na fria em que corpos comungam e aquecem seus espíritos renovados, o suór reaviva a carne, a terra racha e lábios doces florecem. A mais da verdade, que transcende toda gente é que lábios florecem em todas as situações que permitem abertura e entrega. E no somar dos anos era a entrega que se firmava troncosa, crescida de uma força vida-morte-vida para além da atmosfera. Álvara e Bengião.

Saturday, February 21, 2015

Esta é primeira vez que eu sinto com profundidade a grandiosidade da morte. Talvez porque eu tenha me permitido ser ignorante perante a sua força vital, transformadora. Porque eu tenha me permitido sentir. E em pequenas frações que me são permitidas de pouco em pouco sinto com partes menos palpáveis do meu ser uma conexão espiritual com o meu avô muito difícil de colocar em palavras. De provar com a ciência exata. Estranhamento e reencontro com a nossa natureza frágil e perene.

Wednesday, February 4, 2015

Liquidez

Deixou o corpo e fundiu-se com a gravidade.

Em queda um mar de andorinhas formava um tapete-constelação.

Sentiu que ia sufocar e alçou fôlego. Vento que em sua boca soprou esperança.

A onda era fértil e guardava algas peixes pequenos e redenção.

Redenção é uma espécie de planta aquática que te liberta das insignificâncias. Como observar o louva-Deus em oração. 

Das essências da ciência, a gravidade tem um efeito entorpecente.

E teve sobre o seu corpo o espírito das estrelas. Ópio dos sentidos.